Percebi que a janela do banheiro parece ser uma boa forma de contar a passagem dos dias.

Desde que me mudei para essa kitnet às margens de uma rodovia no inferno, devido à incompetência da senhoria em instalar redes de proteção que servissem para alguma coisa nas janelas, eu tinha que escolher entre sufocar e assar dentro de uma caixa de cimento de 20 m² ou ser devorado pelos pernilongos malditos que infestavam a região. Normalmente, eu escolhia a primeira opção. Então, toda noite, antes de dormir, tinha que checar se as janelas estavam fechadas.

Já a primeira coisa que fazia ao acordar, era dar a minha cagada matinal. Sentava na minha privada meio de lado – já que não havia espaço o suficiente para colocar minhas pernas entre o vaso e a parede – e ficava mexendo no celular enquanto meu corpo fazia o serviço.

Eventualmente, sentia o ar rarefeito, e então olhava para o lado, através do boxe de vidro, e me lembrava de que ainda não havia aberto a janela. O dia esperava por mim para começar. Então eu me limpava, me levantava, dava a descarga e então ia abrir a janela. O ar entrava e eu sentia que podia respirar de novo.

O próximo passo era abrir a porta de vidro de correr da caixa de cimento. Quase sempre, quando eu a abria, podia ver os estudantes do ensino médio e faculdade andando pelo acostamento da rodovia até a sala de aula. Ou, se fosse sábado, via algumas pessoas indo e voltando em suas bicicletas e, claro, os carros e caminhões que nunca paravam, e nos horários de pico do dia chegavam a congestionar a BR.

Agora eu não vejo mais nada. Quando abro a porta de vidro, não há mais pessoas, e nem carros como antes. A maioria dos poucos veículos que passa pela rodovia são os caminhões das transportadoras que não podem parar. Pobres coitados. Não podem parar por que precisam de seu salário, e não podem parar por que o país precisa deles. Mas podem morrer e ser facilmente substituídos.

Eu abro a janela do banheiro. Parece que mais um dia se passou, mas eu não tenho mais certeza. Eu abro a porta de vidro e olho para a rodovia, e já não sei mais que dia é. O céu, sempre azul ou cinza, não dá uma ideia exata de se é manhã ou tarde. Mas eu penso: Que diferença faz?

Não há nada a se fazer lá fora, nem nenhum lugar para onde ir. A quarentena do COVID-19 transformou todos em introvertidos involuntários. Para minha sorte, pelo menos, eu sou um introvertido de nascença. Nunca gostei de lugares lotados e barulhentos, e nunca tive muitos problemas em ficar isolado com meus pensamentos. Se tivesse, talvez não seria um escritor.

Isso me faz lembrar da minha depressão em São Paulo, quando eu só trabalhava um dia por semana, e passava os outros seis mofando em meu apartamento. Foi nessa época que comecei a me interessar mais pelo existencialismo, niilismo, absurdismo, e outras correntes filosóficas que eu não recomendaria para as grandes massas. Foi nessa época, que David nasceu. E vejam onde tudo isso levou.

Então, a menos que você queira arriscar se tornar um niilista depressivo nesses tempos da modernidade líquida contemporânea, eu recomendo que você fique longe dos livros de filosofia durante essa epidemia.

Façam como os introvertidos do século XXI: Agradeçam por terem nascido em uma época com internet, jogos e séries online e desfrutem do tempo que lhes foi dado. E não se preocupem: O mundo extrovertido, barulhento e infestado de humanos que vocês adoram ainda vai estar aqui quando a quarentena acabar.