Eles estavam em apartamentos opostos. Ela sabia que ele havia chegado quando as luzes, às 22:25, acendiam. Ela dava uma pequena piscadinha, dois toques sutis, e se ele visse tais toques repetia com três toques rápidos. Esta era a forma que encontraram para dizer “oi, tudo bem? como vai?” Era algo rápido e sutil, mais rápido que mandar uma mensagem no celular, envolto com um plástico que precisaria ser descartado. Ele também precisaria tomar banho, tirar toda sua roupa de proteção, antes de, finalmente, descansar. Sabia que só conseguiria dormir mesmo no fim da madrugada, se aquilo fosse dormir de verdade, também sabia que aquela solidão já era sua antes mesmo de tudo o que acontecera em meados de 2020. No fim das contas os solitários seriam exaltados.

Uma mensagem chega no seu celular, são 00:23 e as sirenes do toque de recolher já findaram em seu absoluto silêncio. Era ela, lá do outro lado da rua, em seu apartamento apagado. Apenas a luzinha da tela do celular encandeava o quarto na escuridão profunda daquele lugar. Um “você ainda está acordado?” surge na dela d’ele. Ele responde que sim e começam a conversar sobre o dia. Ele diz que vai passar lá amanhã para deixar seus remédios para asma, e ela manda um emoji com um sorriso. Uma a uma as luzes que restaram iam se apagando e finalmente às 2:00 a energia é cortada e tudo entra em uma escuridão profunda.

Nem ele, nem ela conseguiam dormir.

Ficavam nas suas respectivas varandas, com as lanternas do celular mandando sinais. Código Morse. Existia um aplicativo para isso. Conversavam do jeito que dava até os primeiros raios cinzas de luz escaparem do céu negro. “Preciso cochilar um pouco” ele manda em sinais. Ela responde com um “te amo” e ambos vão dormir.

Na usa bicicleta ele cobre umas 10 quadras. Leva remédios, comida e água para quem não pode sair de casa, e volta com o dinheiro para o dono da vendinha. São os KamiKazes e enquanto estiverem suas roupas de contenção que mais lembram capas de chuva e suas bicicletas, o resto do mundo capitalista que se agarra com as pontas das unhas na beira do abismo terá vida.  As entregas eram simples, uma caixa com algumas frutas, e alguns não perecíveis, uma ou outra proteína, tudo contado, tudo selecionado. Não havia mão de obra suficiente nas lavouras, logo, não havia comida suficiente para todo mundo. Nos primeiros anos fora caótico, mas como o ser humano se acostuma fácil às adversidades, logo tudo virou rotina.

Cruzava os silêncios das ruas apenas com seus pensamentos, cruzava o silêncio dos dias também silente, pois tais dias agora eram diferentes.

 

CONTINUA