Essa crítica será feita abordando três temas principais: o filme Parasite, a premiação Oscar e o discurso abordado no filme, para quem não assistiu, cuidado que terá Spoilers.

Infelizmente não pude assistir a todos os filmes indicados como melhor filme antes do Oscar. Apesar disto, eu tinha alguns favoritos, mas o que despontava para mim era 1917. Esse eu assisti no cinema, sentado na ponta da cadeira. Quando o Diretor de Parasite ganhou melhor filme estrangeiro, que hoje é chamado de melhor filme internacional, não surpreendeu. Todo mundo que eu acompanho, e que diz entender de cinema, estava tratando Parasite como o novo Cidadão Kane. Claro que eu estava extremamente curioso para assistir este filme, mas as coisas da vida tomaram suas prioridades e eu posterguei, para assistir quem sabe, um dia. Quando o Coreano Ganhou melhor diretor, eu fiquei sinceramente feliz por ele. O discurso foi lindo, a cara que ele fez de surpreso dentre tantas outras coisas. Realmente parece ser um sujeito muito gente boa. Ele ter ganho melhor diretor me acendeu um sinal vermelho de “preciso assistir, preciso assistir”. Esse cara ganhou não só de Quentin Tarantino, diretor que eu adoro, como também de Martin Scorsese, que dispensa comentários, do Sam Mendes que fez um exelente trabalho e, na minha opinião, merecia levar a estatueta, pois foi o filme que mais se destacou no quesito direção, dentre outros. Porém, quando Parasite ganhou como melhor filme, eu desliguei a televisão e dei meu jeito brasileiro de ir assistir o filme. Realmente acreditei que estava perante ao próximo Cidadão Kane.

Mas não estava.

O filme é ruim? Não, não é. O filme é bom? Também não.  O filme merecia todas as indicações? NÃO MESMO!

A história é interessante. Os atores estão muito bons. Senti um certo clichê cinematográfico oriental. Já assisti outros filmes do cinema japonês, chines e coreano e ambos trazem uns clichês curiosos de personagens: O pai prolixo, a mãe briguenta a filha malandra e o filho bobão. Isso não é um defeito do filme, uma vez que 1917 é uma colcha de retalhos de clichês de filme de guerra, mas foi uma pequena quebra de expectativa, pois para quem está acostumado com o cinema oriental, essa repetição de personagens, foi um pouco chata. Interessante que, no ato da premiação, Bong Joon-ho enalteceu os diretores que foram referencia a ele, e que estavam também concorrendo ao prêmio. É visível no roteiro tais referências, principalmente ao Tarantino nos diálogos, mas, diferente de Quentin, que consegue manter o assunto interessante entre os personagens e o telespectador que acompanha aquilo tudo como quem escuta uma conversa de desconhecidos num ônibus e fica preocupado em não conseguir ouvir até o final, Parasite tem diálogos chatos, cumpridos, entediantes, que não levam a lugar algum, não terminam nunca e não nos fazem sentir unos aos integrantes da família. Isso é curioso, a questão das referências, Todd Philips referenciou no filme Coringa grandes obras de Scorsese, como o próprio Taxi Driver e O Rei da Comédia, de maneira primordial, Bong Joon-ho não conseguiu fazer, parecendo uma cópia estranha destes novos clássicos. Vale ressaltar a cena do massacre no aniversário perder toda a dramaticidade com um pastelão bizarro. Esta cena assemelhou-se muito com o final de Era uma vez em Hollywood, porém mal feito. Eu, não sentia empatia com os personagens o bastante para me preocupar com eles, pelo menos o diretor falhou miseravelmente em passar este sentimento.

Dizer que Bong Joon-ho não merecia uma indicação para melhor diretor talvez seja tão injusto como dar a premiação para ele. Em comparativo; Adam Driver fez um trabalho fantástico em História de um Casamento. Sua atuação foi muito boa, porém, seria cedo demais dar uma estatueta para o rapaz, estreante na premiação. Premiar Bong Joon-ho tendo como concorrente o trabalho incrível que Sam Mendes fez em 1917 apenas apequena a importância destas premiações. Ano passado tivemos o impressionante Roma. Filme fantástico, extremamente bem dirigido, com uma fotografia impecável e uma história ímpar. Questiono: por que Roma não mereceu o Oscar e Parasite ganhou? Já já faço mais algumas comparações entre estes filmes.

No segundo ato o filme melhora. Talvez se o filme tivesse começado no segundo ato, seria menos tortuoso. Ah, é necessário mencionar que eu precisei assistir o filme duas vezes. A primeira vez eu dormi umas 5 vezes, e sempre que eu acordava o filme ainda estava passando. Me perguntei se aquilo não iria terminar nunca. O filme é longo demais, e acaba sendo cansativo. Em uns quatro pontos o filme poderia ter acabado de maneira interessante, mas o filme continuou, e ficava cada vez mais chato. Da segunda vez eu consegui assistir sem dormir (nunca tomei tanto café na minha vida), e o filme só piorou. Os diálogos intermináveis me davam uma vontade de morrer. A história que não se concluía nunca, não ia para lugar algum. Diferente de Roma, do ano passado, ou Era Uma Vez em Hollywood, deste ano que você não quer que o filme termine, e são momentos contemplativos e introspectivos, Em Roma, todas as situações em mescla com a fotografia e direção nos fazem querer mais filmes deste jeito. Em Era Uma Vez em Hollywood, damos um passeio no tempo com Brad Pitt e DiCaprio.

Neste ponto eu indago a mensagem do filme: sinto que o roteirista só queria reclamar. No ponto principal temos uma família que mora num porão e tem a oportunidade de ir para uma casa de pessoas ricas e irem “parasitando” aos poucos a vida destas pessoas. Mas, analisando a família protagonista, nós temos um Pai, novo com capacidade de trabalhar, uma mãe, nova com capacidade de trabalhar e seus filhos são adultos, acredito que entre 18 e 20 anos de idade. Eu realmente não sei como é a realidade suburbana sul-coreana,  mas fazendo uma pequena comparação (talvez até injusta, não sei) com o Brasil. Uma família onde os 4 membros trabalham, e ganham um salário mínimo, a família inteira terá uma renda mensal de 4.000 reais. Com um pouco de educação financeira você consegue viver relativamente bem com uma renda destas. Também não entendo nada de especulação imobiliária da Coréia do Sul, mas caralhos! realmente não dava para morar no interior ou em outro lugar que não seja um porão!?? Certo, isso são indagações minhas, mas tais problemáticas não me venderam o filme. Os Ricos são, como sempre, vilanizados no filme, porém em nenhum momento eles são escrotos com os protagonistas ou destratam. Os protagonistas trabalham na casa da família rica e, de mais “errado” que pode ser mencionado é a zombaria que o patriarca da família rica faz sobre o cheiro do patriarca da família protagonista, porém, tal crítica não foi feita de fronte ao criticado (que sabe desta informação porque estava escondido em baixo da mesa da sala da família rica, exatamente porque estava aproveitando-se do fato deles terem ido viajar). Se tem algum coitado nesta história toda era a ex-governanta que perdeu o emprego e cuidava do marido que, por algum motivo, estava escondido na casa da família rica (gente, eu quero realmente saber quanto é um aluguel num subúrbio da Coreia)

Comparando mensagens, Roma trás uma retrato mais realista de problemas famíliares, também trás uma crítica mais coerente. Conseguimos ver todas as camadas na família protagonista e na empregada. Fiquei realmente impactado quando o patriarca abandona a família protagonista e etc. Isso é uma mensagem coerente, uma crítica coerente. Sobre coerência, muito foi elogiado do passeio que o roteiro faze entre drama, comédia e terror (!?) Sinceramente, pareceu que as coisas foram jogadas no filme e a comédia não foi bem executada, o drama em alguns momentos e o terror eu não encontrei. Até mesmo o suspense que poderia ser propício da família encontrar os “parasitas” em sua casa logo foi resolvido e tudo pareceu uma invasão do Chaves, da Chiquinha e do Quico na casa da Bruxa do 71.

Não gostaria de pensar que o Oscar deu uma premiação “lacradora”. Não é de hoje que acontecem injustiças nesta premiação e nem será a última. Na minha visão o filme não mereceria ser indicado, podendo dar lugar ao Joias Brutas, Rocketman, Dois Papas, filmes melhores acabados e coesos. Por um lado, abre porta para que o Oscar premie o cinema mundial em um todo, porém, ao eleger um filme como Parasite, a premiação fica apequenada por perder relevância nas escolhas.

É uma pena eu não ter gostado do filme. Talvez o melhor disto tudo foi ter visto o diretor, que seria um cara legal para sair para tomar uma, ganhar a premiação. O filme, tem cenas boas, mas em 80% deixa a desejar.