Ela me dava detalhes de sua masturbação por telefone. Ouvia alguns gemidinhos misturados aos barulhos das teclas sendo apertadas por sua bochecha esquerda. Segurava o telefone no ombro com a cabeça enquanto sua mão direita trabalhava no auto-prazer. Isso me entediava, sabia que tudo isso era uma forma de compensação. Não tínhamos saído no último fim de semana, nem neste, culpa dela, era trabalho, ela não teve tempo. Também era uma forma de segurar minha atenção. Ela me dizia: “você é um animal puramente sexual Marco” e sim, sua razão era feita através destas afirmações. E não, ela masturbar-se para mim através de um telefone não era excitante, há muito que eu não era mais um adolescente para estas coisas.

Ela gozou sozinha, mas eu disse que também havia gozado. Sentado no meu sofá e tomando uma cerveja, todo aquela áudio drama encenado não era minha felicidade plena. Apenas as primeiras gotas de chuva começaram cair no céu lá fora e o silêncio do outro lado da linha foi quebrado com um “te amo”. Talvez ela tenha enlouquecido de vez, eu sou apenas um simpático homem que puxa a cadeira para ela sentar e abre as portas. Tenho um pouco mais de peso, trabalho em casa, tenho cabelos compridos e desgrenhados, barba por fazer e escrevo poemas. Ela me ama apenas porque a faço gozar e sou um cavalheiro? Tais cosias foram ensinadas por meu pai, o que nos dias de hoje seria um machista opressor.

“Eu também gosto de passar estes momentos contigo” Eu respondo. Sinto a decepção no silêncio do outro lado da linha. “podemos nos ver amanhã, te pego no trabalho.”

“Sim, amanhã dá certo” ela diz, a vida volta para sua voz como uma alegria de um pássaro recém liberto.

Nos despedimos. Estou no décimo terceiro cigarro apenas nesta noite.  Meu hálito de câncer ganha a madrugada escura sem sorrir em sua profundidade.