Os livros começaram a cair da estante. A estante começou a afundar no chão.  O barulho das duras capas caindo ao solo, uma a uma, se amontoando no chão. A estante começa a envergar, uma estante de metal, um tanto enferrujada, cinco prateleiras organizando uma micro bagunça. Livros empoeirados agora deslizam para o solo, fazendo um estrondo e acordando a todos na madrugada. Agonizante na cama, o mundo derretia em sua própria face. Todos os computadores estavam entrando em pane, com barulhos de turbina e explosões, os celulares pegando fogo, as fotos sendo apagadas; rastros da memória coletiva de indivíduos que não se importam, ou deixaram de se importar. De fato, tudo chegaria ao fim naquela noite.

Choveu de madrugada.

Não haveria comida na geladeira, muito menos água gelada, talvez nem a geladeira sobrevivesse. Estava com fome, estava na madrugada, minha cabeça estava confusa. Eu sentia um peso na garganta, como se fosse engolir litros e mais litros de óleo de motor. Eu perambulava pelos escombros do que um dia foi minha vida, pedras caídas aqui e ali, páginas e papeis rasgados. Móveis que lutei tanto para comprar, tudo misturado a tijolos e escombros, restos de vida que não terei mais. Não haveria paz em meu interior, os cachorros latiriam a noite toda, bebês na vizinhança não parariam de chorar pela teta minguante de suas mães mortas. Minha felicidade é feita de uma bituca de cigarro perdida, utilizada como sofá por uma barata sobrevivente a grande desgraça.

Sirenes.

Gritos.

Grilos.

Silêncio.

O silêncio precede a desgraça. Tiros, as pessoas foram à loucura. Um pouco de desordem social e tudo vira uma desgraça. O mal humano que é perene em nossa alma, nosso vícios sociais escondidos na carapuça do contrato social. Todo isso ruiu, todos os livros que colecionei, os poucos que encontrei entre os pedaços de escombros, serão utilizados como combustível para uma fogueira improvisada. Sim, literatura no combate ao frio de uma noite triste. Tudo virou silêncio quando menos eu esperava. Me senti em uma bola de vácuo, uma ameaça inconsistente ao que eu acreditei um dia ser tranquilidade. O silêncio é o perigo que não se anuncia. Não entendo o que houve, sei que meus braços sangram e minha cabeça dói. Um outro, logo mais ali na frente, fratura exposta, morrerá e os cães comeram seu cadáver. Todos tem fome, perdemos a noção de quando aconteceu…

Tiros.

Todos nós saímos correndo. Eles possuem armas, eles possuem fé, eles possuem tudo aquilo que não temos, o resto. Eles conseguiram chegar no resto primeiro, logo eles são mais forte do que aqueles que não tem nada. Muitos morreram no correr, mas eu sobrei, eu me escondi nos esgotos, entre os ratos, as baratas tudo aquilo que reneguei. Minha vida ficou para trás, pouco a pouco eu esqueço de como era a voz daqueles que dividiram um teto comigo. Vou esquecendo-me das palavras, vou esquecendo de como era meu reflexo. Ainda consigo correr, ainda consigo me esconder. Todos se escondem. Eu não queria mais me esconder, mas qual é minha chance? Eles tem o resto, eu não tenho nada. Eles conseguiram eu não. Sou apenas o caminho e eles são a bifurcação. Vão me matar, arrancar meus órgãos, comer minha carne. Serei defecado, o medo de todo homem primitivo.

Ser defecado por um animal.

Perder sua zona de conforto.

Entrar na zona de confronto.

O que restou de mim, Cristo! O que restou? Estou no esgoto, estou entre vermes e baratas, as pessoas que eu amei estão mortas. Mortas. Tudo ruiu, tudo desmoronou. Tudo virou pó. Meus livros. O que restara, nada. Então, porque não lutar? Mas não vou conseguir vencer, eles têm o resto, eu não tenho nada. Mas, se não tenho nada, também nada tenho a perder.

Mas e minha vida?

Não sobrou nada dela, todos já foram. O resto é o resto. Eles o tem, vão proteger com unhas e dentes. Posso morrer, mas vou destruir o resto deles.

A tampa do bueiro se abriu e uma figura, uma sombra, uma sombra peluda e fétida cortou a noite silenciosa.

O silêncio é meu amigo.

A figura caminhou cortando os pés em cacos de vidro, garrafas do resto, a figura esgueirou-se por entre todos aqueles homens que possuem o resto. Eles tem armas, eles tem muitas armas. Mas não tenho medo, eu morri no dia que meu mundo morreu. A figura (sou eu) correu nu e ferido pela escuridão. A figura precisava destruir o resto, e assim desejava fazê-lo. Assim o fez. O incêndio iluminou a noite com um brilho jamais visto. Gritos e mais gritos, tiros e mais tiros. Eles não esperavam que um dia o resto daquilo que foi algo iria ruir também. A figura fugiu para os esgotos em meio ao tiroteio das últimas munições. Estes eram os últimos minutos civilizados daquelas pessoas que sobraram. O resto pereceria.

Mas eu estava ferido. As entranhas escorrendo pelo buraco de bala. Sangue, vermelho, lindo, brilhoso, misturando-se ao óleo, fezes, sujeira e animais que um esgoto mistura. Meu sangue fará parte da escrotidão do mundo. Lá em cima caos, caos convergente. Lá em cima loucura, fogo, sangue morte. Não existem explicações.

Não existem explicações.

Na vida, você precisa entender, ou fingir, mas faça. Tudo irá desmoronar quando menos se espera, então não espere. Tudo vai desmoronar, seus livros se transformarão em escombros e seus familiares em fezes. Este é o ciclo que os budistas tanto disseram. Cá estou eu, baratas correm pelas minhas frias mãos. As águas fétidas molham meus pés, o mundo se torna cada vez mais distante. Pouco a pouco vou me tornando resto.